Edição 53
Agosto/2014

Grandes Entrevistas: Rubens Barrichello

“Eu estou querendo viver na pele para poder ver, para poder analisar, e tem muita coisa que a CBA precisa abraçar a causa. Tem que ajudar a CBA a ser melhor”

RENAN DO COUTO, de São Paulo
 
A alegria de Rubens Barrichello ao comemorar a vitória na Corrida do Milhão da Stock Car, no início do mês de agosto, era genuína. Os 11 triunfos conquistados na carreira no Mundial de F1 podem ter sido mais emocionantes ou importantes, e talvez por isso a ficha do experiente piloto tenha caído já na entrada da reta dos boxes do autódromo de Goiânia, quando ele tinha a certeza de que não seria ultrapassado por Thiago Camilo até a linha de chegada, e não com um beliscão no dia seguinte. Mas a verdade é que a emoção de poder subir no teto do carro #111 junto do filho Eduardo para celebrar a primeira vitória na Stock Car foi apenas diferente.

Barrichello deixou a F1 a contragosto, no fim de 2011. Se pudesse, continuava por lá e ampliava o recorde de 325 GPs disputados na principal categoria do planeta. Foi para a Indy em 2012 ser companheiro do amigo Tony Kanaan, mas a passagem pelo automobilismo norte-americano não deu certo e, em outubro, ele estava de volta ao Brasil para, em Curitiba, disputar sua primeira prova na Stock Car.

No começo, o veterano sofreu para aprender a verdadeira pegada das corridas com carros de turismo. Até foi rápido nos primeiros treinos classificatórios, mas achava que as provas tinham batidas demais. Pouco a pouco, foi se acostumando e se adaptando à sua nova realidade. Uma adaptação que, agora, ele acredita que está concluída. Prova disso foi a vitória em Goiânia, que “chegou na hora certa” e é apenas mais um passo dado por um piloto que tem como objetivo para o futuro próximo ser campeão da Stock Car.

A conversa de Barrichello com a REVISTA WARM UP acontece três dias após a Corrida do Milhão, por telefone. A entrevista deveria ter acontecido em Goiânia, após a visitação do público aos boxes, mas o piloto pediu para adiar porque estava preocupado com a viagem de volta para São Paulo e os compromissos escolares do filho: “O Dudu tem prova de matemática amanhã”.
Em um 'momento família', Rubens Barrichello comemorou a vitória na Corrida do Milhão junto do filho Dudu (Foto: Duda Bairros/Vicar)
Barrichello começa logo comentando a respeito da conquista no Autódromo Ayrton Senna. “A vitória não tem hora para chegar, para falar a verdade. Ela chega quando você está preparado. ‘Não estou adaptado’. ‘Estou me adaptando’. ‘Opa, agora me adaptei’. Nesse ano, já me senti muito à vontade dentro da Stock, então era uma questão de tempo e de trabalho. A equipe Full Time deu um salto muito grande para a frente desde o ano passado, e para mim foi o momento certo”, diz o piloto de 42 anos.

“Mais ou menos” foram as palavras usadas por Barrichello para responder se ele mudou de alguma forma, desde a chegada à Stock Car, a impressão que tinha da categoria. Ele mudou, mas não exatamente a respeito de conceitos — ou pré-conceitos — sobre o campeonato nacional.

“Eu, quando comecei a olhar a Stock Car, era muito cedo. Desde a época que eu andava de kart, apreciava as corridas principalmente do Ingo [Hoffmann], mas Ingo, Paulão [Gomes], Chico [Serra], de outros. Cheguei a dar uma volta com um Stock Car mais ou menos há uns dez anos atrás. Dei uma volta no carro do André Giaffone e, depois andei, no mesmo ano, no carro do Gualter Salles. Ninguém ficou sabendo, foi só para brincar. E o carro evoluiu muito desde aquela época. Muito. Na verdade, eu vindo para o Brasil correr de Stock Car, não tinha que falar ‘isso é ruim’, ‘isso é bom’. Eu que tinha que me adaptar à categoria e ponto final. Era escolha minha estar ali, então tinha que me adaptar mesmo.”

O processo de aprendizado que culminou na performance do primeiro fim de semana de agosto, que também teve direito à pole-position no sábado, “foi total na prática”, como o próprio descreve. “Nas primeiras três corridas, percebi que o ritmo, que as posições de como colocar o ‘stockão’ nas retas era muito diferente de uma categoria de fórmula. Por isso, até me sinto mais orgulhoso. Se você considerar que fiz três provas no ano de 2012, estou no meio do meu segundo ano na categoria, então estou muito feliz de, tão cedo, ter conquistado e de ter recebido tantas mensagens — e de tantos pilotos — por ter conquistado. Porque foi ali, né, o Thiago estava mais rápido nas últimas cinco voltas, mas deu para buscar e segurar a parada toda.”

A dedicação foi igualmente importante para o sucesso desta nova fase da carreira de Barrichello.

“Em tudo que eu entro, entro para brigar, até nas 500 Milhas de Kart. É muito mais relaxado do que qualquer outra corrida de F1 que eu fiz, mas eu estou lá. Dei o exemplo do Dudu, no sábado à noite, perguntando: ‘Pai, mas você já vai dormir?’ É a mesma coisa. Se eu vou fazer alguma coisa, tenho que fazer bem-feito. Se eu tenho que ter as minhas oito horas de sono, vou ter. Se eu preciso disso, vou fazer. Se tenho que andar no simulador, vou fazer — meu enfoque continua o mesmo.”

E teve também o papel da equipe. “Eu gosto bastante do nível da equipe. Está baseada em Vinhedo, é perto, consigo visitar pelo menos uma vez por semana; o Maurício é extremamente inteligente como engenheiro e como estrategista, então me sinto muito à vontade e eles estão me deixando à vontade e buscando me dar aquilo que eu preciso. Afinal de contas, apesar da falta de experiência no Stock Car, eu tenho muita experiência em saber o que eu quero e o que eu preciso de um carro. Ele está trazendo isso para mim”, afirma.

Diante disso tudo, o objetivo está claro na cabeça do piloto: “Ser campeão da Stock, sem dúvida nenhuma.”
“Hoje em dia, qual é o brasileiro que vai chegar lá [na F1]? Aquele que tiver uma bolsa cheia de dinheiro para chegar”

Pela bandeira do automobilismo nacional

Ao mesmo tempo que se estabelece na Stock Car e entra para o hall dos vencedores do campeonato, Barrichello tem a percepção de que seu nome pode contribuir para gerar mais interesse em torno da categoria e do automobilismo nacional como um todo. E espera que isso de fato aconteça.

“Não é nem a percepção: eu espero que ajude. Espero mesmo que ajude. Teve pistas que eu voltei a competir no Brasil que estavam nas mesmas condições de 1989, quando eu corri de F-Ford. Isso, na minha opinião, é um absurdo e uma falta de respeito com aqueles que estão no meio. Eu me sinto orgulhoso, também, de poder ser objetivo e poder ajudar. É muito fácil a gente botar o dedo, xingar, fazer isso e fazer aquilo. Mas com reuniões periódicas, com a palavra certa no momento certo, pode simplesmente ajudar.

Acho que a volta de Goiânia, a volta de Brasília, a reforma de Cascavel, isso tudo tem a ver com o crescimento para virar um bom momento do automobilismo nacional. E a gente está sem categoria para essa criançada ser lançada no Brasil, como eu fui lançado e tive um pouco de experiência. A gente tem aí a F3, mas corre um mínimo de carros, algumas outras categorias, mas um mínimo de carros. O Fraga é um grande talento, mas não deveria estar correndo de Stock Car. Se bem que, para nós, é ótimo, mas não deveria. Se você pensar bem, se é um grande talento, deveria estar lá fora, competindo para levantar nossa bandeira lá fora, e por que não está? Porque o financeiro não ajuda, porque não tem isso, não tem aquilo.

Fui muito claro quando deixei a entender que a Alemanha foi campeã mundial com um planejamento que vinha de vários anos, nos treinamentos, nas categorias de base, no treinamento psicológico. Tudo isso foi feito na F1 também com o Vettel, com o Rosberg, com uma série de coisas, os caras tiveram apoio. Com o Hamilton na Inglaterra. Pensa se o Brasil tem alguma coisa disso? Não tem. Hoje em dia, qual é o brasileiro que vai chegar lá? Aquele que tiver uma bolsa cheia de dinheiro para chegar. E não era assim. A minha história não foi assim. Eu, se eu não tivesse Arisco no meu carro, não teria chegado, mas eu fui passando e ganhando todos os campeonatos para abrir a minha porta. Hoje, vejo que tem uma meia-dúzia de pilotos na F1 que estão ali por causa do dinheiro e só.”

Além de ajudar com a imagem, Barrichello também conta que está começando a se mexer para contribuir de uma maneira efetiva — colocando a mão na massa. Essa, segundo ele, é uma das razões pelas quais ele voltou a competir no kartismo nacional. Mas, por enquanto, sua intenção não é fazer alarde. “Eu já tenho feito isso. Tenho feito na surdina porque, afinal de contas, não tenho muito o desejo de falar ‘fiz isso’, ‘fiz aquilo’. Daqui um tempo, se vingar, aí já é outro papo”, fala.

O discurso do ex-piloto de F1 é de alguém que quer simplesmente colaborar. Embora critique a gestão feita pela Confederação Brasileira de Automobilismo, Barrichello está disposto a contribuir para mudar o cenário. “Tem que ajudar a CBA a ser melhor. Tem que ajudar o Brasil, aqueles que apóiam. O Ayrton já falava isso: quando você precisa do apoio, não tem; quando você chega lá, o cara quer colocar o nome no teu carro. A gente tem que mudar essa mentalidade”, prega.

“Voltei a correr de kart para tentar entender um pouco se a gente está fazendo alguma coisa pelo kartismo nacional. E não está. O Campeonato Brasileiro de Kart teve 200 pilotos na fase 1, 200 na fase 2, e ele poderia ter tido 400 na primeira e 400 na segunda. Precisa de um empurrão muito grande. E eu estou querendo viver na pele para poder ver, para poder analisar, e tem muita coisa que a CBA precisa abraçar a causa.

Por enquanto, a gente ainda não está no patamar das CBAs lá de fora, que estão ajudando, que estão promovendo, dando o sangue para que os pilotos possam estar na F1 um dia.”

Na opinião de Barrichello, o fundamental é que o trabalho inclua incentivo e ensino no kartismo, a base de tudo. Ele exemplificou: “Na categoria Cadete, que o Fefo [Fernando] corre, as pancadas que os moleques dão um no outro sem nenhuma punição ou nenhuma conversa faz com que o cara chegue muito mal preparado na Europa. A primeira dessas que o cara dá na Europa, toma uma bandeira preta e vai falar ‘pô, isso, no meu país, podia’.” O kartismo precisa ser gerido por alguém “que entenda e que dê amor pelo esporte”.
Rubens Barrichello emendou ao triunfo em Goiânia a vitória na etapa de Cascavel (Foto: Miguel Costa Jr./Medley)

Um Barrichello diferente

O Rubens Barrichello que está de volta ao Brasil, andando na Stock Car e mais perto da família e do público brasileiro, é diferente do Barrichello que correu por 19 temporadas na F1?

Ele diz que sim. “Acho que é”.

Para o piloto que defendeu Jordan, Stewart, Ferrari, Honda, Brawn e Williams, o cara que está hoje na Stock Car vem se moldando há algum tempo — a fase final da carreira na F1, após a saída da Ferrari, pode ser colocada como um divisor de águas neste sentido.

“Acho que meus últimos cinco anos de F1 já foram muito melhores. Gosto muito mais de mim do que em anos anteriores. Não que eu não gostasse, mas você poder administrar o problema e saber que é algo que vai te fazer ser melhor futuramente, isso não tem preço, sabe? Essa experiência de poder encarar um problema com um sorriso e de gostar mais de você mesmo para gostar mais daquilo que precisa; ficar numa boa, não gastar energia com aquilo que não precisa, com porcaria. Isso fez de mim uma pessoa melhor, não tenha dúvida. É um crescimento natural. Mas hoje eu me sinto muito mais pronto e realizado. Talvez as crianças tenham me ajudado muito também.”

De certo modo, a declaração de Barrichello se assemelha ao que Felipe Massa tem dito desde que trocou a Ferrari pela Williams no início da temporada 2014. O atual representante brasileiro no Mundial de F1 — entrevistado pela REVISTA WARM UP na edição de julho — disse algumas vezes que sentiu um alívio por deixar o ambiente carregado de Maranello.

Barrichello vê diferenças entre seu caso e o de Massa, mas explica as razões que o levam a crer que mudaram sua atitude de 2006 para cá.

“É uma situação meio diferente. Eu tinha um ano de contrato ainda. Procurei por seis anos dar um passo para trás para poder dar dois para a frente. Foi sempre assim. Fui indo. Até o momento em que eu estava vendo que as pessoas não iam me dar o que eu precisava. O que você precisa na F1 é de apoio e você participar da estratégia número A. Número 1, letra A. Muitas vezes, na F1, é por milésimos de segundo que você não vai ganhar a corrida. Então eu saí da equipe para ter uma condição dessas em outra, e me sinto orgulhoso. O começo não foi lá essas coisas com a Honda, mas a Honda se abriu para uma Brawn que foi o meu melhor momento na categoria.”

Com o time liderado por Ross Brawn, Barrichello foi o principal adversário de Jenson Button ao longo do campeonato, mas não conseguiu evitar que o inglês conquistasse o título com uma prova de antecipação, no GP do Brasil. Rubens terminou o campeonato em terceiro após ser superado por Sebastian Vettel na prova final, o GP de Abu Dhabi — não o melhor resultado dele em uma temporada, contudo, já que ele havia sido vice-campeão em 2002 e 2004.

Agora, no Brasil, Barrichello destaca a chance que tem de se aproximar de gente que o apoiou durante os 19 anos da carreira na F1 e de poder viver momentos como o que dividiu com seu filho mais velho logo após ganhar a Corrida do Milhão — foi ao pódio acompanhado por ele, inclusive.

“Isso é uma coisa sensacional, né? Não é só o Dudu. É o fato de, como eu falei, às vezes tivemos pessoas ali na torcida que torceram por mim por 19 anos e não tiveram a chance de chegar perto, e a Stock Car passa na cidade deles. É uma forma de retribuição. Poder deixar o torcedor entrar. Brinquei com a minha esposa sobre um cara que veio me pedir um autógrafo e disse: ‘Eu torço para você desde que nós dois tínhamos barba preta’. Ou seja, o cara tem um relacionamento, apesar de nunca ter falado comigo, que é íntimo, talvez pelas redes sociais, mas é legal demais poder dividir isso. E ter meu filho por perto e poder usufruir disso, poder passar para ele os moldes exatamente de como o pai dele criou a vitória desde o começo do fim de semana foi sensacional.

Eu sou da opinião de que, pequeno ou grande, é da nossa vida, é daquilo que a gente cria. Por que que a F1 é maior que a Stock Car? Porque a maioria fala isso. Mas, se você pensar direito, a audiência que deu a Stock Car nesse domingo de corrida foi quase maior que a F1 tem dado. Então é uma questão puramente mental da gente colocar num pódio coisas, carros, objetos. O que mais importa para mim na vida, e sempre foi assim, é você estar contente com o seu momento atual. Quando as pessoas falavam em 2011 ‘tem que parar, já deu o que tinha que dar’, eu ouvia muito isso, tal, parar pra quê? Eu gosto do que eu faço, faço com tanto prazer, porque que tem que ser assim? Hoje a maior amostra de paixão é a minha. Corri o Brasileiro de Kart na semana anterior após 26 anos de fora. Corri, tudo bem, para estar perto dos meus filhos, para dar uma mão para o kartismo, para ficar de olho na molecada, mas, enfim, é uma situação que eu só faço porque eu gosto demais. E enquanto eu estiver saudável, com o corpo fisicamente em dia, você vai me ver correndo.”
 

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