Edição 36
Março/2013

A receita do sucesso

A Red Bull surge como grande favorita ao título e pode chegar no fim do ano a um incrível tetracampeonato. Mas para alcançar tal glória, os touros terão grandes desafios pela frente

RENAN DO COUTO, de São Paulo
Será que a equipe mais poderosa da década vai conseguir em 2013 manter a hegemonia e fazer de Sebastian Vettel ganhar a quadra ou ainda desencalhar Mark Webber? (Foto: Clive Mason/Getty Images)
rês títulos nos três últimos anos, um dos melhores pilotos da atualidade, um dos maiores engenheiros de todos os tempos, um ótimo chefe de equipe, dinheiro à vontade e apoio forte da Renault. Todos esses fatores credenciam a Red Bull, equipe mais poderosa desta década, para brigar pelo tetracampeonato do Mundial de F1. Tendo como pilares Christian Horner, Adrian Newey e Sebastian Vettel, além do escudeiro Mark Webber, a Red Bull não chega a ter nenhuma missão impossível pela frente. Afinal, toda a base do império taurino foi mantida para 2013.

A questão que será respondida a partir do dia 17 de março é: o que a Red Bull vai enfrentar para se manter no topo? Já diria o filósofo que mais difícil do que alcançar o auge e manter-se nele. Pois bem. Desde já, é hora de fazer um balanço da pré-temporada, diante do que cada time mostrou nos circuitos espanhóis de Jerez de la Frontera e Barcelona para avaliar quais são as chances de cada uma das cinco grandes equipes da F1.

A primeira adversária da Red Bull será a própria Red Bull. Antes de qualquer coisa, é preciso fazer a lição de casa e desenvolver um bom carro. A pré-temporada não apresentou o RB9 como um grande carro, mas cabe uma ressalva: assim como nos últimos anos, a impressão que ficou foi que os tricampeões esconderam o jogo, não botaram Sebastian Vettel e Mark Webber para andarem tão rápidos como podem. Logo, não dá para acreditar que a Red Bull ficará de fora do top-10, ou ainda, que não vai ficar longe das primeiras posições no grid de largada para o GP da Austrália.

Mas um fato é que o RB8, carro usado no ano passado, não era o melhor da última temporada. Acabou sendo o mais constante, o mais regular, o que oscilou menos. Foi o melhor em alguns momentos, de fato, permitindo que Vettel arrancasse na reta final, vencesse quatro corridas seguidas e faturasse o tri. Contudo, a forma da McLaren, pelo menos em termos de velocidade, era muito boa — o problema foi a pouca confiabilidade do MP4-27, que deixou seus pilotos a pé algumas vezes.
Harmonia é um ponto de atenção na Red Bull. Mark Webber (à direita), nunca se conformou em ser apenas segundo piloto, por mais que Vettel seja a grande estrela. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
Os taurinos terão trabalho para manter a harmonia interna na equipe. Vettel, obviamente, é o número 1, mas Webber, sempre competitivo, nunca se conformou muito em ser apenas o segundo piloto e já evidenciou isso. É claro que o australiano não tem o brilho do seu jovem companheiro de equipe, mas costuma ser eficiente quando está em boa fase. Vez ou outra, Helmut Marko, falastrão que só, aponta a mira da sua metralhadora giratória contra o australiano, defendido pelos escudos de Christian Horner e Dietrich Mateschitz, que garantem dar igualdade de condições aos seus dois pilotos. Até porque, caso aconteça algo diferente disso, Webber certamente será o primeiro a abrir a boca e não deixará pedra sobre pedra no time de Milton Keynes.

As rivais também têm suas armas para destronar o império taurino. A McLaren, assim como a própria Red Bull, foi outra que não quis mostrar muito seu real potencial. Jenson Button e Sergio Pérez chegaram a fechar dias de treinos coletivos na liderança. O mexicano, inclusive, foi o mais rápido da segunda bateria de treinos coletivos, a primeira de Barcelona. Mas um indício da velocidade dos ingleses veio já no primeiro dia da temporada 2013. Líder na abertura dos trabalhos, Button ficou em quinto lugar no combinado dos tempos marcados na Andaluzia. Isso em seu primeiro contato com o novo carro e com os novos pneus em um asfalto ainda pouco emborrachado e usando pneus duros. Dali por diante, foram poucas as ocasiões em que o time de Woking foi com tudo para a pista.

O mesmo não pode ser dito das outras três grandes. Ferrari, Lotus e Mercedes, essas sim, se preocuparam em explorar o ritmo de classificação durante a pré-temporada. Foram elas que lideraram a maioria dos dias de treinos na Espanha – três times que precisam mostrar serviço, principalmente os italianos e os alemães.
Fernando Alonso é a maior ameaça ao império taurino e à ‘dinastia Vettel’.
O asturiano é praticamente intransponível quando tem nas mãos um bólido decente
 
A Ferrari não repetiu o fiasco do início de 2012, quando produziu um dos piores carros de sua história. Só pelo fato de estar melhor do que no ano passado, a escuderia de Maranello já pode ser colocada como candidata ao título, afinal, se Fernando Alonso fez o que fez com aquela carroça que era a F2012, com certeza será capaz de obter resultados melhores com a F138. Considerado por muitos como o piloto mais completo em atividade na F1, Alonso tem ao seu lado um companheiro de equipe mais forte e motivado. Felipe Massa, que só faltou fazer chover no fim da temporada passada, forma com Fernando uma das duplas mais fortes do grid. Com o brasileiro rendendo bem, assim como aconteceu no ano passado, a Red Bull terá uma enorme pedra em seu caminho se quiser chegar ao tetra.

No Mundial de Pilotos, a ameaça Alonso é ainda maior. Difícil de ser batido com um carro ruim, o asturiano é praticamente intransponível quando tem nas mãos um bólido decente. O samurai está com ‘sangue nos olhos’ e muita vontade de quebrar o jejum de títulos, que já vai para seu sétimo ano. Seguramente, é a maior ameaça ao império taurino e à ‘dinastia Vettel’.
 
A Mercedes tem de dar, urgentemente, retorno aos chefões de Stuttgart. Desde 2010, a estrela de três pontas brilhou apenas uma vez no céu da F1, quando Nico Rosberg dominou o GP da China de 2012. Ironicamente, no poluído céu de Xangai. Assim como as estrelas que pairam sobre a China, o brilho da estrela germânica ficou ofuscado em meio a nuvens de fumaça. A constelação de títulos de Michael Schumacher esteve apagada nos três últimos anos. O maior campeão da história não conseguiu o oitavo título, tampouco a 92ª vitória. O auge foi um terceiro lugar no GP da Europa de 2012. O fracasso fez até Norbert Haug, quase que um símbolo da montadora nas últimas duas décadas, pedir demissão.

Agora sob o comando de Toto Wolff, a Mercedes foi quem terminou a pré-temporada por cima. Nico Rosberg marcou o melhor tempo dos oito dias de testes em Barcelona, e a nova aquisição do time, Lewis Hamilton, ficou na terceira posição. Quem mais se aproximou foi a Ferrari, com Fernando Alonso e Felipe Massa em segundo e quarto, respectivamente. Resta saber se o ritmo de corrida, grande calcanhar de Aquiles das Flechas Prateadas, será bom em 2013.

Por fim, a Lotus parece ter evoluído em relação ao ano passado. E, por menor que seja a evolução, já é algo significativo. O E20 era rápido em ritmo de classificação e constante em ritmo de corrida. Não era o melhor nem em uma coisa, nem em outra, mas era bom para as duas. Além disso, sua dupla de pilotos também é bem completa e combina bem com o pacote técnico: Romain Grosjean é muito veloz, ao passo que Kimi Räikkönen é o chamado ‘overall’, aquele que se dá bem em quaisquer situações.
 

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